Se não houver nenhuma reviravolta – a roda da política costuma dar guinadas inesperadas! – o ambiente no Senado está ficando mais leve e tende a entrar nos eixos. Depois que Sarney enquadrou o governo e Lula enquadrou o PT, não há mais riscos visíveis da saída de Sarney, de rebelião no PMDB nem de florescerem as CPIs da Petrobrás e do DNIT, órgão do Ministério dos Transportes.
A própria oposição vai continuar esperneando um pouco, mas não força para sozinha mudar o rumo das coisas. E uma parte dela nem infeliz ficou com a solução de conchavo. Melhor não arriscar. A sociedade não tem força para forçar nada e as eleições estão longe. A semana começa com a tentativa de criar algum fato positivo no Congresso, para desviar as atenções.
Pode ser o anúncio de algumas investigações a mais no Senado e alguma votação na Câmara. Quanto as investigações no Senado, se for no mesmo caminho da encerrada na semana passada a respeito dos atos secretos, mas de 650, vai ser uma farsa. Esta só investigou os servidores graduados do Senado, como se eles tivessem agido à revelia. E nenhum senador tivesse levado benefícios.
A chegada do recesso parlamentar, no dia 15, é a outra grande aposta de Sarney e do governo para tentar tirar a crise do Senado e o apoio do governo a Sarney das manchetes. Isso vai depender, em parte, porém, do alcance dos compromissos fechados nos últimos dias. A entrevista do senador Tião Viana à revista “Veja”, na qual ele critica duramente o presidente Lula pela postura adotada em toda a história, mostra que muitas mágoas ainda estão no ar.
Não devem explodir na reunião da bancada petista no Senado amanhã, para definir sua posição em relação ao caso. Ela já foi definida por Lula. A reunião é apenas pró-forma. Mas ficarão latentes, pois alguns senadores do PT estão sinceramente incomodados com o que está acontecendo com o Senado, pois não acreditam que Sarney possa mudar muita coisa por lá. Incomodam-se também com o fato de estarem reféns do PMDB.
Uma outra incógnita é a burocracia do Senado, aquela da banda podre simbolizada por Agaciel e Zoghbi e também o seu lado sério. É evidente que parte das informações sobre os mal feitos por lá têm partido dos servidores da Casa. Ou como ameaça e pedido de proteção ou ainda como defesa prévia. É preciso observar como foram feitos os acertos nesta seara e quem vai aceitar o papel de bode expiatório, aquilo que Roseana Sarney disse que seu pai não seria.
Lula está na Europa, Sarney e Renan Calheiros estão fortalecidos, o PT já entendeu qual é o seu papel e o seu lugar e parte da oposição está louca para mudar de assunto. A crise então está sendo varrida para debaixo do tapete. Alguns dos monturos mais mal cheirosos poderão ser desmontados para dar satisfações à opinião pública. Mas nada que não nos garanta que mais dia menos dia novas tristes histórias virão.
Não é apenas uma questão de fulano ou beltrano, de um ou outro desvio. É uma crise bem mais profunda, do Congresso e do sistema político brasileiro com um todo. E como ela está sendo tratada com panos quentes, tem tudo para explodir mais virulenta outra hora. E da próxima vez pode não poupar também o Executivo, que mergulhou nela com sede demais.
Por enquanto Brasília está voltando à sua vida normal.