Sempre tive um extraordinário respeito pelo jornalista mineiro radicado nos Estados Unidos, Lucas Mendes. Mestre no jornalismo escrito e na televisão. Por isso mesmo, estranhei quando dei com o título da coluna dele no site da “BBC Brasil”: “Comédia no Brasil?” Onde estaria a graça desse escândalo todo? Lucas, porém, bom dessas coisas de informação, fala do Congresso americano.
Pois, por aqui, temos uma tragédia que se acentua a cada dia. O presidente do Senado, como vimos ontem, depois de ameaçar renunciar e levar o PMDB dele e de Renan Calheiros para a oposição, ganhou apoio irrestrito de Lula (e por ordem palaciana, do PT). É certo que Sarney, como ressaltou o líder do PT Aloizio Mercadante, em seu primeiro discurso na tribuna do Senado, não é o único problema.
Mas ele é parte do problema – e o grande obstáculo ao início de uma faxina real (e não apenas de fachada) no velho Senado. Veja se lhe as companhias. Armou-se o conchavo para preservar ao máximo o que já existe, como na velha lição do príncipe Salinas no memorável “O Leopardo”, do italiano Lampedusa, filmado magistralmente por Viscontti: as coisas precisam mudar para permanecer como estão. Com a benção do presidente Lula.
A grade alegação de Mercadante, porta-voz das orientações palacianas, é de que é preciso preservar Sarney e afagar o PMDB para garantir a governabilidade. Mas que governabilidade é esta, que precisa de um partido sem grandes princípios programáticos e ideológicos, pronto para pular para o galho que mais fruto lhe oferecer em cada ocasião?
Palavrãozinho danado esse “governabilidade”. Serve para nada e serve para tudo acobertar. Vamos entender sua acepção nesse caso;
1. Cobre a conveniência de um número nada desprezível de senadores, assustados com o que pode ser revelado nas caixas pretas da casa. Conveniência pluripartidária, ecumênica, de governistas e oposicionistas.
2. Atende pelo nome da candidatura Dilma Roussef e o tempo do PMDB no horário obrigatório de propaganda no rádio e na televisão.
3. Tem o sobrenome de CPI da Petrobrás, aquela que o governo não teme, na qual o PMDB, com seus três votos, é o infiel da balança.
Assim, o roteiro já está traçado: acham-se alguns bodes expiatórios – Agaciel, Zoghbi e outros bagrinhos -, faz-se um arremedo de reforma interna, e vida por lá prossegue, mansa como quase sempre, com todos felizes. Até o próximo escândalo.
Ou até o eleitor brasileiro perceber que somente ele tem poder de impor mudanças. Será que já não está na hora do cidadão brasileiro eliminar de seu vocabulário da palavra “reeleição”? Em todos os níveis, pelo menos no ano que vem. E mesmo que alguns bons, de fato, sejam sacrificados?
Para a maioria seria até um benefício, pois eles alegam sempre que a atividade política é um sacrifício, prejudica os negócios, a vida familiar, a vida pessoal. Que tal livrá-los dessa desgraça e eleger gente menos disposta a se “sacrificar”?
No devido lugar
Informam os jornais que “Lula vai receber Sarney nesta sexta-feira.” O contrário é que não seria o correto? “Sarney dará audiência a Lula nesta sexta-feira”. Afinal, quem está com todos os trunfos nas mãos é o presidente do Senado com o PMDB dele. Que o diga a bancada senatorial do PT.