Durou menos de meio dia o rasgo de audácia do PT de pedir o afastamento temporário do senador maranhense do Amapá da presidência do Senado para que uma comissão especial investigue com independência as lambanças que ocorreram na Casa nos últimos anos.
Até o início da noite de ontem a maioria da bancada petista no Senado defendia essa proposta. O porta-voz era Aloizio Mercadante. Depois de conversar com Sarney na casa deste, mudou de idéia. Foi enquadrada. Lula ainda da Líbia, pediu juízo aos companheiros. Foi enquadrado e enquadrou.
Agora, mais do que nunca Sarney e Lula estão irremediavelmente abraçados. No caso Sarney é um lulo-dependente e Lula é um Sarney-dependente. O que não quer dizer que José Sarney conseguirá terminar este seu mandato na presidência do Senado, que vai até 2010.
O ajuste de ontem foi apenas para reorganizar as forças governistas até que se encontre uma solução para a crise que seja boa – ou menos perigosa – para o governo e menos desmoralizante para Sarney.
Para recordar o que está em jogo:
1. O risco de o Senado cair nas mãos de um oposicionista ou de alguém com algum grau de independência em relação ao Palácio do Planalto.
2. Os votos da maioria do PMDB nos assuntos de interesse do governo.
3. O apoio oficial do PMDB (com seu latifúndio de minutos no horário eleitoral obrigatório no rádio e na televisão) à candidatura petista da ministra Dilma Roussef à sucessão de Lula.
Convenhamos, não é pouco, embora a imagem da instituição Senado devesse valer muito mais do que isso. Infelizmente, na nossa política não vale. Valem os interesses eleitorais e os negócios patrimoniais (o dinheiro público usado como se fosse patrimônio pessoal), dos quais muitos dos atuais senadores, no governismo e no oposicionismo não estão livres.
Daí um outro movimento subjacente a este do governo de não deixar o Senado escapar de seu colo: o movimento mais geral de resolver a crise sem quebrar os cristais da sala. Alguma coisa como: vamos mudar nas aparências para permanecer tudo mais ou menos como está. E sem remexer demais no passado. O esquecimento. A anistia.
Construir um “novo” Senado sobre os escombros do velhusco Senado. Não vai dar certo.